Tem cara que entra no tatame pra treinar. E tem cara que entra no tatame pra deixar o nome na história. Wallid Ismail é desse segundo grupo. Um amazonense que pegou um ônibus, viajou 2 dias e 2 noites do Amazonas até o Rio de Janeiro, bateu na porta da academia do Carlson Gracie e saiu de lá virando lenda viva do Jiu Jitsu brasileiro.
A história do Wallid Ismail Jiu Jitsu é uma das mais épicas que esse esporte já produziu. Tem briga histórica, tem rivalidade com a família Gracie, tem o estrangulamento relógio que botou Royce pra dormir, tem fundação do Jungle Fight, tem agressão na praia, tem volta por cima. E tem aquela atitude de Carlson Gracie Team que ficou marcada pra sempre.
Senta aí que esse aqui é dos longos. Vamos contar a história completa desse guerreiro do Norte que ajudou a colocar o Jiu Jitsu no lugar onde ele está hoje.
- A origem amazonense de um lutador inquebrável
- A chegada na Carlson Gracie e a surra do Ricardo De La Riva
- O primeiro campeonato no Rio: o blefe do “judoca de Manaus”
- O confronto histórico contra a Luta Livre
- O dia em que Wallid botou Royce Gracie pra dormir
- A briga com Renzo Gracie e a rivalidade com a família
- A briga de rua com Edson Carvalho
- Brasil Dojo, Jungle Fight e o legado fora do tatame
A origem amazonense de Wallid Ismail
Nome completo: Wallid Farid Ismail
Apelido: “Paraíba” (jeito carinhoso que a galera da Carlson Gracie usava por causa das origens dele no Norte)
Nascimento: 23 de fevereiro de 1968, em Manaus, Amazonas
Wallid começou no Jiu Jitsu em 1980, em Manaus, treinando com Ary Almeida. Já criança, ele competia representando o estado do Amazonas nos campeonatos locais e ia colecionando vitória atrás de vitória. Foi nessa fase que ele começou a entender uma coisa que ia carregar pra vida toda: cara, ele acreditava nele mesmo de um jeito que pouca gente acredita.
Esse é um detalhe importante. O Wallid não saiu de Manaus com promessa de patrocínio, com convite de academia famosa, com nada. Ele saiu de Manaus porque ele decidiu que ia ser o melhor. E pra ser o melhor, ele precisava treinar com o melhor. E nessa época o melhor estava no Rio de Janeiro, na academia do Carlson Gracie em Copacabana.
A chegada na Carlson Gracie e a surra do Ricardo De La Riva
Em 1984, Wallid pegou um ônibus em Manaus e passou 2 dias e 2 noites na estrada até chegar no Rio. Imagina só essa cena, cara. Um moleque de 16 anos saindo do meio da Amazônia rumo ao desconhecido, sem dinheiro, sem rede de apoio, só com a certeza de que era ali que ele tinha que estar.
Chegou no Rio e foi direto pra famosa academia Carlson Gracie, em Copacabana. Quando entrou, só tinha um “magrelo” sentado no tatame. Wallid, com aquela energia dele, perguntou se o cara queria dar um rola soltinho, com chute e tapa de mão aberta, antes do treino começar. O magrinho aceitou.
Resultado: Wallid tomou uma surra violenta do cara. Quando os outros alunos começaram a chegar, os dois pararam, Wallid foi pro vestiário colocar o kimono e quando voltou descobriu uma informação que mudou tudo. O “magrinho” era o instrutor auxiliar da academia. E não era um instrutor qualquer. Era o Ricardo De La Riva. Sim, esse mesmo. O cara da guarda que leva o nome dele.
Carlson Gracie se afeiçoou ao amazonense na hora. Descreveu ele depois como um “cara gordinho e cabeludo”, bem diferente do guerreiro magro e cabeça raspada que a gente conhece hoje. Mas a vontade de vencer já era a mesma. Como Wallid não tinha dinheiro, Carlson permitiu que ele treinasse de graça, algo que o velho mestre fazia muito com aluno de menos posses.
O primeiro campeonato no Rio: o blefe do “judoca de Manaus”
No primeiro campeonato que Wallid lutou no Rio, ele tinha apenas 3 meses de treino com o Carlson Gracie. Três meses, cara. Ele só sabia uma coisa: passar a guarda. E nada mais.
Aí entra a malandragem do Paraíba. Sabe o que ele fez? Começou a espalhar pelo ginásio o boato de que ele era um judoca famoso de Manaus. E o plano deu certo. Quando chegou a hora de lutar, todos os adversários, com medo de tomar 2 pontos da queda, foram pra guarda voluntariamente.
E como o cara dominava? Passagem de guarda. Foi o que ele fez a luta inteira. Passou a guarda de todo mundo e ganhou o campeonato. Três meses de treino e um campeonato no Rio com a única coisa que ele sabia fazer. Essa é a essência do Wallid: atitude, raça e cabeça pra resolver problema.
O confronto histórico contra a Luta Livre
No começo dos anos 90, o Jiu Jitsu e a Luta Livre estavam em guerra. Não era guerra figurada. Era pancada na rua, era invasão de academia, era treta de verdade. Em uma dessas, depois de uma briga entre Rickson Gracie e Hugo Duarte numa praia do Rio, a galera da Luta Livre invadiu a academia Gracie pra destruir o lugar com os alunos dentro.
Quando Wallid soube do que tava acontecendo, mesmo sendo da Carlson Gracie, mesmo tendo a rivalidade histórica com a academia Gracie, ele largou tudo e correu sozinho pra ajudar a defender a casa. Sozinho, cara. Ele foi sozinho. Porque na cabeça dele, ali não era Carlson contra Gracie. Ali era Jiu Jitsu contra quem queria destruir o Jiu Jitsu.
Pouco tempo depois, veio o desafio que ia decidir de uma vez por todas qual era a luta mais eficiente no Vale Tudo brasileiro. Foi marcado um evento entre os mestres do Jiu Jitsu e da Luta Livre. Wallid era só faixa marrom na época, mas implorou pro Carlson pra entrar na luta. Foi tão insistente que o velho cedeu.
Ismail era o único lutador que não era faixa preta ali. E venceu a luta dele depois de exaustivos 16 minutos, por nocaute técnico, junto com todos os outros guerreiros do Jiu Jitsu. Esse foi um momento decisivo na história do esporte. Se a Luta Livre tivesse vencido, o Jiu Jitsu provavelmente teria sumido do mapa.
O dia em que Wallid Ismail botou Royce Gracie pra dormir
Esse é o capítulo que todo mundo conhece. E é por isso que esse post tá aqui hoje.
Durante anos, Wallid desafiou abertamente os líderes da família Gracie. Rickson, Royce, qualquer um. Dizia que lutaria contra todos, em qualquer estilo. Em 1998, finalmente Royce aceitou. Mas com regra diferente: sem limite de tempo e sem pontuação. Só Jiu Jitsu puro, finalização ou nada.
A luta foi marcada como um evento beneficente chamado “Jiu Jitsu Contra a Violência” e a imprensa do Brasil inteiro cobriu o evento. Foi nessa fase que Wallid soltou a frase que virou marca registrada dele, dada pra um jornalista:
E o tempo ruim chegou. Wallid finalizou Royce Gracie com o seu característico estrangulamento relógio, botando o Gracie pra dormir. Foi o dia em que um amazonense da Carlson Gracie Team finalizou um dos maiores nomes da família que inventou o Jiu Jitsu moderno. Esse momento mudou a hierarquia do esporte de um jeito que poucas lutas conseguiram mudar.
Royce Gracie tinha sido o cara que mostrou o Jiu Jitsu pro mundo no UFC 1, 2 e 4. Era um símbolo do Gracie Jiu Jitsu. Quando Wallid finalizou Royce, ele provou pra todo mundo que o Jiu Jitsu não era propriedade exclusiva de uma família. Era de quem treinasse forte e tivesse coragem.
A briga com Renzo Gracie e a rivalidade com a família
A vitória sobre Royce não foi a primeira sobre um Gracie. Wallid já tinha vencido Ralph Gracie antes, ainda como faixa marrom, e em 1993, já faixa preta, derrotou o lendário Renzo Gracie. Essa foi uma luta polêmica, com narrativas conflitantes que se arrastam até hoje, e a gente cobriu ela em detalhe no vídeo logo acima.
Mas a rivalidade mais sangrenta foi com o falecido Ryan Gracie. A história começou numa praia de Copacabana, quando Ryan, acompanhado de amigos e parceiros de equipe, agrediu Wallid, que estava sozinho. Daí em diante, Wallid desafiou Ryan várias vezes pra uma luta limpa, no tatame, mas o desafio foi sempre evitado pelo Gracie. Ficou uma treta aberta que nunca teve resolução.
Cara, essa coisa de rivalidade entre academias e famílias é parte do DNA do Jiu Jitsu brasileiro. Hoje em dia tá mais civilizado, mas as histórias da década de 90 são absurdas. E o Wallid foi um dos protagonistas dessa era.
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A briga de rua com Edson Carvalho
Essa parte da história é pesada. Não é luta de tatame, é briga de rua mesmo, e quase custou a vida do Wallid.
Edson Carvalho era um faixa preta de Jiu Jitsu e judoca durão. Na época, ele tinha se juntado a uma arte marcial obscura liderada por um cara que se intitulava “Mestre da Morte”. Esse “mestre” afirmava que o estilo de luta dele, o Yawara, podia matar qualquer um só com um toque de dedo. Coisa de filme B, mas o cara levava a sério.
Tudo começou no clube de Judô Mehdi, uma academia que muitos alunos do Carlson Gracie frequentavam pra melhorar o Judô. Wallid e Edson tiveram um desentendimento numa aula. Trocaram palavras pouco amistosas e saíram sem resolver a treta.
Três dias depois, Wallid voltou pro clube pra treinar no horário da manhã. Terminou o treino, foi pro balneário e estava se arrumando pra sair quando Edson entrou batendo forte. Wallid, totalmente surpreendido, cedeu ao espancamento. O Sr. Mehdi, dono do clube, não querendo confusão, expulsou os dois da academia.
Edson então jogou Wallid escada abaixo e continuou batendo. Alguns relatos dizem que o irmão de Edson também entrou na briga e ajudou a deixar o amazonense sem sentidos. A polícia chegou quase uma hora depois. Wallid estava inconsciente, completamente desfigurado, com o nariz arrancado e a cabeça tão inchada que quase não dava pra ver uma das orelhas.
Passou uma semana no hospital em estado considerado grave. Muita gente classificou aquilo como uma tentativa de homicídio.
Depois disso, o tal “Mestre da Morte” desfilou por Copacabana se exibindo com a camisa ensanguentada do Wallid. Quando o Mestre Carlson Gracie ficou sabendo (ele estava nos Estados Unidos), pegou o primeiro avião pro Brasil. Reza a história que ele encontrou o “Mestre da Morte” e teve que ser puxado de cima dele. Os relatos vieram de Osvaldo “Paquetá” e “Bebeo” Duarte, contados no site intheguard.tv anos atrás.
Brasil Dojo, Jungle Fight e o legado fora do tatame
No começo dos anos 2000, Wallid encerrou a carreira no MMA com um cartel de 9 vitórias, 3 derrotas e zero empates. Aposentado das lutas, ele abriu a própria academia com a aprovação do Carlson Gracie, chamada Brasil Dojo, junto com o amigo de longa data e promotor de lutas Antonio Inoki. Já tinha um plano maior na cabeça: trazer o MMA de volta pro Rio de Janeiro.
Pra entender o contexto, é importante saber que o MMA estava longe da Meca do Jiu Jitsu havia muito tempo. Desde o final dos anos 90, as constantes brigas nas arquibancadas dos eventos tinham dado mau nome ao esporte. Wallid sabia que pra reerguer o MMA brasileiro, ele precisava começar de novo, em outro lugar.
Em 2003, ele levou o MMA pra sua cidade natal, Manaus. Juntou alguns dos melhores lutadores do Brasil e fundou o Jungle Fight. O evento estourou. Virou referência. Cresceu tanto que Wallid abandonou o projeto da Brasil Dojo pra se dedicar 100% ao Jungle Fight.
Além de promoter, Wallid virou também manager de vários atletas de alto nível, como Paulo Thiago, Erik Silva e Sérgio Moraes. Caras que chegaram no UFC pela mão dele.
Wallid Ismail é a prova viva de que talento sem atitude não vai a lugar nenhum. Ele não foi o atleta mais técnico da sua geração, mas foi um dos mais determinados. Saiu de Manaus com nada, virou faixa preta do Carlson Gracie, finalizou um Gracie, sobreviveu a uma quase-tentativa de homicídio, fundou um dos maiores eventos de MMA do Brasil e ainda formou atletas de nível mundial. Isso é legado.
Wallid Ismail e a essência do Jiu Jitsu
Cara, eu venho falando muito no canal sobre como o Jiu Jitsu transforma quem entra de cabeça. A história do Wallid é exatamente isso, só que multiplicada por mil. É o cara que entendeu, na pele, que o tatame é onde o caráter se forja.
Tem uma luta que define muito bem o tipo de guerreiro que ele era: na faixa marrom, contra “Jucão”, em determinado momento ele estava perdendo de 9 a 0. O Jucão encaixou um armlock bem justo e estalou o braço do Wallid várias vezes. Wallid recusou desistir. Conseguiu fugir do ataque, virou o jogo e venceu a luta por pontos. Isso é o resumo do cara: ele não desiste, mesmo quando todo mundo diria que faz sentido desistir.
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Histórias como a do Wallid mostram uma coisa: os caras que viraram lenda tinham clareza do caminho. Eles sabiam o que treinar, em que ordem treinar, e onde queriam chegar. Se você tá começando agora e não quer ficar perdido no tatame, repetindo posições soltas sem evoluir de verdade, o GFA é a sua trilha. Simples e eficiente, do jeito que o Jiu Jitsu deveria ser ensinado. 1 ano de acesso pra consultar sempre que precisar.
Continue a Sua Jornada pelas Lendas do Jiu Jitsu
Se você curtiu mergulhar na história do Wallid, esses outros caras também merecem o seu tempo. São histórias que ajudam a entender o esporte que você treina hoje:
- História de Carlson Gracie, o Mestre de Wallid Ismail
- História de Royce Gracie, o Gracie que Wallid botou pra dormir
- História de Helio Gracie, o patriarca do Jiu Jitsu brasileiro
- Rickson Gracie: o Jiu Jitsu como filosofia de vida
- História de Royler Gracie
- História de André Galvão
- História de Fernando Tererê
- A história da Nova União, uma das maiores equipes do Brasil
- A história da Checkmat Jiu Jitsu
Esse aqui é um daqueles posts que eu escrevi com vontade. O Wallid representa muito do que eu acredito sobre Jiu Jitsu: que não importa de onde você veio, importa onde você tá disposto a chegar. E como você tá disposto a apanhar pra chegar lá.
Me conta nos comentários: na sua opinião, qual foi o momento mais marcante da carreira do Wallid Ismail? A finalização no Royce, a luta contra a Luta Livre ou a fundação do Jungle Fight?
Forte abraço, tamo junto. Muito Mais Ação Jiu Jitsu, muito mais Jiu Jitsu pra você. OSS!
As informações que serviram como base dessa publicação foram extraídas do site bjjheroes.com, dos sites das academias e dos atletas, e de publicações de revistas como Graciemag, Tatame, entre outras.


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